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Instrutor: Fernando de Moraes
O propósito deste curso não é ensinar gramática àqueles que ou não a aprenderam quando deveriam ou trataram de esquecê-la na primeira oportunidade. A despeito da fidelidade do curso à tradição linguística, filológica e gramatical da língua portuguesa, a gramática tal como a entende o público terá aqui papel meramente coadjuvante (alternando, conforme a circunstância, as vezes de antagonista, protagonista e figurante) na consecução de objetivo mais ambicioso quanto mais urgente e necessário: remover os obstáculos e fornecer os elementos para o desenvolvimento, por parte do aluno, de uma linguagem cultivada, ou seja, para uma tomada de posse criativa e personalizada da língua portuguesa.
Se décadas (já mais de século, para ser exato) de debates linguísticos, projetos pedagógicos, reformas e descalabros os mais variados legaram ao brasileiro de hoje uma língua que vacila entre o pedantismo e a barbárie, é que, ora metida em espartilho gramatiqueiro, pincenê (ou seria nasóculos?) e traje de gala, ora alargada à deformidade em surrão amplo e supostamente democrático, a língua dos brasileiros esteve quase sempre acamada no procustiano berço dos antagonismos sem jeito, pendão esplêndido de um país onde a fórmula invariável dos debates públicos é o entrechoque ideológico de exageros contrários.
No momento, porém, em que o laissez-faire linguístico e a polícia do novo corretismo verbal se dão as mãos para instaurar no território da linguagem o condomínio político de Leviatã e Beemoth, é já questão de mera sobrevivência resgatar a língua e o sentimento da linguagem. Não a língua como decreto-lei, portaria ministerial, condicionamento evolutivo ou trampolim social, mas como puro e divino dom da fala. Em outras palavras, a língua não será aqui tratada como objeto – quer normativo, quer descritivo – de nenhuma ciência, como sistema linguístico nem como fato social que devamos padecer com docilidade, mas como faculdade espiritual que é urgente assumir e afirmar.
Para tanto, além dos temas gramaticais corriqueiros, serão abordados tópicos de fonética e fonologia, filologia, filosofia, etimologia, gramática histórica, estilística e história externa da língua portuguesa, com destaque para o secular debate em torno do “problema da língua brasileira”. Assumindo a divisa de que a língua que une povos não pode dividir por dentro as almas, este curso terá cumprido seu objetivo se puder restaurar em algumas almas brasileiras o prazer de viver em língua-pátria.
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