Grupo de Estudos - Marques Rebelo
29 de abril (1936)
É impossÃvel rememorar os acontecimentos em ordem cronológica. À solicitação de um nome, perfume ou rótulo, de um armário que estala em quarto de hotel, de uma chave que emperra, de céu chuvoso, reflexo de sol, porta entreaberta ou cheiro de bife, eles nos acodem com infinda versatilidade. Anotemos a corrente das lembranças e, quando menos esperamos, teremos formado, ponto a ponto, o manto que veste a nossa vida. Esquisito manto de retalhos! Quanta cor enganosa, quanto som desafinado, quanta forma adversa. E nos é vedado, quanta vez absurdo, compreender os fatos imediatamente – serÃamos vÃtimas de fantasmagoria universal que nos cerca, e as nossas conveniências como deformam tudo! Como é possÃvel compreender Madalena, Laura, Catarina, a tosca Aldina, a imagem do poeta que se crê claro e imortal, os beijos sem êxtase, o orgasmo fracassado, a esperança que teima em cruzar nossa vereda?
Marques Rebelo
O Trapicheiro
O grupo de estudos da obra de Marques Rebelo formou-se há quase um ano, estamos lendo seu último livro, A Guerra Está em Nós, e ainda titubeamos quando chamados a responder quais os traços mais marcantes de sua obra ou mesmo qual a forma organizadora e unificante de um romance ou de um conto já lido.
O trecho citado acima é de O Trapicheiro, primeiro volume de sete previstos, mas três escritos, da série denominada O Espelho Partido. Ele é ilustrativo e também explicativo, julgamos nós, de alguns aspectos fundamentais da composição dos três volumes.







