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Ângelo Monteiro - A arte como outra forma de graça

No dia 06 de novembro de 2011, às 17h00, transmitimos um encontro com Ângelo Monteiro, no qual ele comentou falou sobre A arte como outra forma de graça, comentou seu recém-lançado livro Arte ou Desastre, além de outros temas em conversa informal. A gravação da palestra já está disponível para os associados do IOC, em nossa reformulada seção de Palestras e Eventos.

MONTEIRO, Ângelo - O Tempo de Pio XII

Postado por IOC em Terça, 14 de Fevereiro de 2012 em Textos

O romance inédito de Admaldo Matos de Assis, Terras adormecidas, vale principalmente, ao lado de outras qualidades expressivas, por sua capacidade de reconstituição de um tempo em pequeno burgo interiorano: as duas primeiras décadas da segunda metade do século XX. Era também o tempo em que nossa infância e nossa adolescência, do meio dia à hora do Angelus, praticamente se deixavam reger pelo toque dos sinos. Estávamos — não nos esqueçamos — sob o pontificado de Pio XII, o Papa Angélico, ainda distantes dos primeiros albores do Concílio Vaticano II.

Admaldo Assis nos descreve, de maneira lapidar, em seu romance o perfil de Pio XII que ele menino confundiria, pelo som, com Papa Piedoso e, mesmo enganado, não falhou em seu diagnóstico sobre ele: “Em moldura oval pairava a fotografia do papa em preto e branco: rosto afilado, óculos de fino aro metálico, boina alva (só muito depois descobriria chamar-se de solidéu) sobre a cabeleira rala, usando espécie de manto cujo gola parecia um longo capucho de algodão”.

Era uma época marcada mais pela concentração que pela participação, tanto no culto religioso quanto no âmbito educacional. No recinto do tempo, assim como na escola, principalmente no primeiro, ninguém ousava falar acima de uma certa altura na voz: quer entre colegas, quer entre fiéis. O silêncio, mediando as palavras, também tinha voz. Até que, como depois veríamos, a participação proposta pelo último concílio veio converter-se na mais desconcentrada extroversão, não deixando quase lugar para qualquer forma de contrição, ou para mais simples meditação, coisa que João XXIII, em seu ar de bondoso patriarca, sequer haveria de suspeitar. Qualquer dia desses, durante a consagração eucarística, não estaremos livres de ver os fiéis prorromperem em palmas em vez de permanecerem de joelhos...

Mas nossa reflexões não pretendem ser, de modo nenhum, anticonciliares: quando muito elas têm o fito de lembrar um capítulo da nossa história pessoal e coletiva em que dois papas desempenharam um papel relevante, que jamais voltaria a se repetir, dentro de uma visão ainda religiosa do mundo. De um lado, o carismático patriarca de Veneza, que chegava ao sólio de São Pedro, com sua mensagem de ecumenismo e de maior abertura espiritual; de outro, um papa que se despedia, dotado de invejável cultura filosófica, teológica e humanística, destacando-se sobretudo por uma firme ortodoxia que representava um mundo tão sólido que a gola branca do seu manto vermelho parecia pairar acima de todas as mudanças que, porventura, à sua revelia, viessem a se operar sobre a face da mesma Igreja.

Ângelo Monteiro é poeta e ensaísta.

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"O elemento estrutural do cosmos, e a realidade fundamental da nossa experiência, chama-se alma imortal humana. Essa é nossa verdadeira constituição e verdadeira realidade. Somos almas imortais, e é só isso que somos."