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Ângelo Monteiro - A arte como outra forma de graçaNo dia 06 de novembro de 2011, às 17h00, transmitimos um encontro com Ângelo Monteiro, no qual ele comentou falou sobre A arte como outra forma de graça, comentou seu recém-lançado livro Arte ou Desastre, além de outros temas em conversa informal. A gravação da palestra já está disponível para os associados do IOC, em nossa reformulada seção de Palestras e Eventos. |
MONTEIRO, Ângelo - A Comunhão dos Tempos
Todos somos passageiros, tanto no sentido de estarmos de passagem, quanto no de um dia desaparecermos literalmente. Apesar de a noção de progresso permear, na atmosfera contemporânea, todas as relações, quer físicas, quer mentais, entre as coisas, nunca se observa devidamente o caráter de recapitulação presente em todas as passagens de ano.
A força dos ritos de renovação, em sua exemplaridade, faz de cada ano que passa um abismo que se fecha e de cada novo ano uma montanha que se ergue ante os nossos olhos. Ou seja: a cada ano mais velhos, enfrentamos um mundo cada vez mais novo.
No próprio tempo em que vivemos nunca poderemos avaliar nossas ações com a medida que só a perspectiva dos dias tem condições de moldar, e, dessa forma, terminamos acorrentados ao passado ou precipitados no futuro quando tentamos achar a exata significação do presente que nos é dado.
Os iluminismos de vária espécie, com sua luz já fosca, mal conseguem escorar suas desbotadas utopias, e somos, à revelia de nós, aprisionados como borboletas empalhadas em um tempo minguado de qualquer porvir. Entretanto fazemos parte de uma comunidade não só de vivos, mas de mortos, e muito mais: de mortos que alimentam nossa vida com a permanência de sua mensagem, que são os nossos mais próximos ou remotos antepassados, tal como vemos, por exemplo, nas eternas palavras do Credo que, desde meninos, recitamos.
Como ninguém escapa do Juízo, constante no Credo, nem os próprios descrentes, somos todos testemunhas de uma mesma história partilhada, ainda que de maneira incompleta, tanto pelos vivos como pelos mortos. O andar dos dias nos impele, portanto, em direção a um horizonte que, com fervor, ansiamos, sem sequer imaginarmos qual será nele o nosso grau de participação. A memória nos serve de veículo de comunhão entre o tempo em que vivemos e aquele que viveram os que chegaram antes de nós: ela forma um verdadeiro traço de união entre o nosso presente e o nosso passado.
Na impossibilidade de apagar o tempo da nossa passagem pelo mundo, e nos sujeitarmos, para isso, a uma falsa idéia de eternidade, só nos resta aceitar a sua marca indelével em nossos corpos e, principalmente, em nossas almas. É, pelo menos, o que nos ensina a travessa sabedoria popular: “Tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador”: que, aliás, não passam de figurantes sempre diversos nessa contínua travessia pelas estradas do espaço e também as do tempo.
Ângelo Monteiro é poeta e ensaísta.
Publicado originalmente em OPINIÃO JC, 07/01/2012.
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"O elemento estrutural do cosmos, e a realidade fundamental da nossa experiência, chama-se alma imortal humana. Essa é nossa verdadeira constituição e verdadeira realidade. Somos almas imortais, e é só isso que somos."







