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Ângelo Monteiro - A arte como outra forma de graça

No dia 06 de novembro de 2011, às 17h00, transmitimos um encontro com Ângelo Monteiro, no qual ele comentou falou sobre A arte como outra forma de graça, comentou seu recém-lançado livro Arte ou Desastre, além de outros temas em conversa informal. A gravação da palestra já está disponível para os associados do IOC, em nossa reformulada seção de Palestras e Eventos.

Grupo de Estudos - Marques Rebelo

Postado por IOC em Segunda, 20 de Fevereiro de 2012 em Notícias

29 de abril (1936)

É impossível rememorar os acontecimentos em ordem cronológica. À solicitação de um nome, perfume ou rótulo, de um armário que estala em quarto de hotel, de uma chave que emperra, de céu chuvoso, reflexo de sol, porta entreaberta ou cheiro de bife, eles nos acodem com infinda versatilidade. Anotemos a corrente das lembranças e, quando menos esperamos, teremos formado, ponto a ponto, o manto que veste a nossa vida. Esquisito manto de retalhos! Quanta cor enganosa, quanto som desafinado, quanta forma adversa. E nos é vedado, quanta vez absurdo, compreender os fatos imediatamente – seríamos vítimas de fantasmagoria universal que nos cerca, e as nossas conveniências como deformam tudo! Como é possível compreender Madalena, Laura, Catarina, a tosca Aldina, a imagem do poeta que se crê claro e imortal, os beijos sem êxtase, o orgasmo fracassado, a esperança que teima em cruzar nossa vereda?

Marques Rebelo

O Trapicheiro

O grupo de estudos da obra de Marques Rebelo formou-se há quase um ano, estamos lendo seu último livro, A Guerra Está em Nós, e ainda titubeamos quando chamados a responder quais os traços mais marcantes de sua obra ou mesmo qual a forma organizadora e unificante de um romance ou de um conto já lido.

O trecho citado acima é de O Trapicheiro, primeiro volume de sete previstos, mas três escritos, da série denominada O Espelho Partido. Ele é ilustrativo e também explicativo, julgamos nós, de alguns aspectos fundamentais da composição dos três volumes.

Os volumes são feitos de diários com entradas de quase todos os dias de 1936 a 1944. Não são, apesar disso, livros de memórias, mas romances, compostos com arte e forma de romances. Neles, porém, a memória daquele que escreve os diários, o personagem e narrador Eduardo, tem um papel central não apenas na reconstituição dos eventos, mas também relativamente à forma e ordem em que eles são recuperados.

Relações familiares, eventos da infância, as mulheres desejadas e amadas, eventos da vida doméstica e social presentes ao tempo da narrativa, os círculos intelectuais do Rio de Janeiro, o estado novo, a grande guerra, tudo é motivo, tudo é assunto dos diários de Eduardo. Mas qual o princípio que organiza e dá sentido ao encadeamento de todas essas memórias?

Ainda não chegamos a uma conclusão definitiva a respeito, mas é razoável levantar a hipótese de que um dos princípios organizadores do livro seja o de o narrador fazer percutir na ordem e no encadeamento dos eventos narrados a ordem do funcionamento próprio à natureza da memória, a qual, com um cheiro de bife ou perfume de mulher, com o assovio das cigarras, com a presença maciça de um carrilhão ou com a simples sugestão de uma palavra, volta-se a outras presenças, menos sensíveis mas não menos presentes na alma do escritor dos diários. A dança dessas imagens aparentemente dispersas tem sim uma ordem, apenas antevista por nós, mas certamente incorporada nos passos e destinos de seu condutor. E ele nos leva consigo a ver uma série de paisagens, visitar muitos amigos, refletir sobre a arte do escritor e temer seus fracassos, e a amar muitas mulheres. Percebemos, então, o quanto esses acontecimentos passados em momentos temporalmente os mais desligados entre si são os mesmos que deram experiências, conhecimentos e uma forma, ainda que inacabada, ao homem e às opiniões do homem presente. Eles formam o conjunto de seus complexos e temores, de seus ódios e amores, das tendências às vezes superficiais, mas muitas vezes profundas de sua alma.

E não devemos nos enganar com o que parece superficial, com os diálogos corriqueiros e as descrições cuidadamente despretensiosas de objetos, de paisagens, de momentos testemunhados na infância, pois é na escolha da ordem dos eventos, nas descrições das diferentes reações e relações que as personagens guardam com os objetos e com seus pequenos amores, na escolha das palavras, no próprio hálito das palavras que sentimos nos modos de falar de cada pessoa retratada, é a partir de todas essas “superfícies” que adivinhamos as profundidades de vários dos personagens de Marques Rebelo. De Aldina, a vivacidade, a sensualidade inculta transparecem na sua fala direta, sem rodeios, num só tempo doce e rude, fina e boba, e nas breves descrições que apontam para seu corpo. É no modo como cuida de suas flores, protegendo-as e criando o ambiente em que elas possam crescer e tornarem-se belas, e padecendo ao vê-las em meio a ventos fortes e tempestades, que vemos quem é a mãe de Eduardo, quem é a mulher que escolhe as rosas mais belas e viçosas de seu jardim para servirem de coberta mortuária a Cristininha, a filha. Sem as evocações que trazem um velho carrilhão, saberíamos menos acerca da relação que Eduardo guarda com o passado, das diferenças morais e de temperamento entre ele e seus irmãos.

Mas são as mulheres – eis mais uma hipótese plausível que se insinua ao grupo –, são as relações que Eduardo tem com as mulheres mais importantes em sua vida que refletem com mais clareza os principais dramas pelos quais ele passa. “Todo homem é um espelho de mulheres mortas” diz a epígrafe que antecede cada um dos três romances. E é ao acompanharmos a trajetória dessas relações e dos tipos de amor que Eduardo dá a cada uma dessas mulheres que vislumbramos as modulações de seus sentimentos no correr do tempo, o tom emocional que domina cada romance ou ao menos cada etapa da vida de Eduardo, quais suas principais tendências e que sentido ele busca para sua vida.

Quem são e que tipo de relação Eduardo tem com cada uma dessas mulheres serão assuntos de algumas das próximas entradas neste blog.

 

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"O elemento estrutural do cosmos, e a realidade fundamental da nossa experiência, chama-se alma imortal humana. Essa é nossa verdadeira constituição e verdadeira realidade. Somos almas imortais, e é só isso que somos."