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Ângelo Monteiro - A arte como outra forma de graçaNo dia 06 de novembro de 2011, às 17h00, transmitimos um encontro com Ângelo Monteiro, no qual ele comentou falou sobre A arte como outra forma de graça, comentou seu recém-lançado livro Arte ou Desastre, além de outros temas em conversa informal. A gravação da palestra já está disponível para os associados do IOC, em nossa reformulada seção de Palestras e Eventos. |
Grupo de Estudos - Georges Bernanos
"Nós queremos tudo o que Ele quer, mas nós não sabemos que o queremos, nós não nos conhecemos, o pecado nos faz viver na superfície de nós mesmos, nós não entramos em nós senão para morrer e é aí que Ele nos espera".
Diário
Georges Bernanos
Por que, porventura, deves antes ser invocado para depois ser conhecido? Mas como invocarão aquele em que não crêem? Ou como haverão de crer que alguém lhos pregue? Com certeza, louvarão ao Senhor os que o buscam, porque os que o buscam o encontram e os que o encontram hão de louvá-lo.
Confissões
Santo Agostinho
O grupo de estudos que se concentra na vida e na obra do escritor Georges Bernanos, após passar bom tempo lidando com sua biografia, uma história cheia de som e fúria vivida por um patriota, e com seus escritos políticos, muitos dos quais produzidos em sua estadia no Brasil, debruça-se agora em sua literatura, seguindo-a na ordem de publicação: Sob o Sol de Satã, A Impostura e sua continuação, Alegria – Madame Dargent, primeira história publicada por Bernanos, em 1922, também esteve na pauta.
Mas a leitura da ficção de Bernanos não vai desacompanhada de um mergulho ainda mais profundo na biografia do escritor, para o qual o livro Bernanos par lui-même, de Albert Beguin é de inestimável ajuda.
A obra acompanha a vida do escritor e buscando a origem de suas preocupações mais essenciais, mostrando como transparecem no romance bernanosiano após sua maturação no cadinho daquela alma de asceta de que fala Olavo de Carvalho.
A mentira que seduz o eu consciente, acolhendo-o para depois destruí-lo, tomando-lhe o lugar na edificação de uma personalidade que surgirá feia, farsesca, perversa, má:
Ganse, como o Senhor Ouine, como em parte o abade Cénabre, pertencem a este grupo de personagens, prisioneiros da mentira e do desespero que Bernanos não tirou senão do fundo de si mesmo, traçando neles uma implacável caricatura de si buscando olhar-se a si mesmo nestes espelhos deformadores de um prazer estranho. Um prazer, sobretudo, que pareceria bem estranho se não víssemos nele a prática de uma ascese purificadora e um dos episódios da luta empreendida sem cessar contra os demônios familiares da impostura e da repugnância.
A infância como um refúgio – a época da vida em que, já disse Olavo de Carvalho, “cultivamos mitos, amores e heróis” – para onde se deve voltar o coração em busca da senda trilhada pelo filho pródigo que dissipou seus bens, sua própria substância:
“A infância não é para ele, apesar das rupturas brutais da adolescência evocadas pelo prefácio de Os grandes cemitérios sob a lua, algo que esteja perdido para sempre, mas ao contrário, o que subsiste a despeito dos erros e das errâncias, a parte mais profunda do ser, aquela que é permanente e indestrutível, mesmo quando a vida, a irrupção dos instintos, a abominável curiosidade, a mais detestável mentira pareceram ofendê-lo e desmentir a sua grandeza. Pois é, precisamente, a parte de cada um de nós que é digna de ser salva. Não somente digna de redenção, mas positivamente redimida”.
Talvez esteja correto dizer que é na infância que travamos contato mais próximo com nossa própria forma, que percebamos em nós manifestações que estejam mais de acordo com a nossa vocação, com aquilo que nos define. Talvez esteja na infância esse contato com “tudo o que Ele quer”, de que fala o escritor; os traços mais reais e permanentes de uma personalidade que “subsistem dos erros e errâncias” nas escolhas feitas à medida que se vai “adultescendo”.
Tais traços se destacam de acontecimentos concretos que jamais escoaram indiferentemente para aquele depósito difuso e obscuro nos subterrâneos da memória, mas lá ficaram guardados ocupando certa posição de destaque, indexados. Na infância, esses traços foram convocados a se manifestar em determinadas ocasiões; manifestados, eles constituíram marcas vivas daquilo que jaz na alma como potência que deve ser atualizada justamente quando determinada situação assim exigir; a recordação dos atos permite descobrir o que lhes vai por trás, a trama por sob o tecido das ações, a fonte mesma de onde tais atos vieram até encontrar a luz do dia.
Ao notar a permanência desses “vestígios infantis” no fundo da personalidade, soterrados pelo acúmulo de sedimentos colhidos no desvio tomado, um homem maduro percebe que pode, e deve, tomá-los como elementos orientadores para cada ato, em cada situação que se apresenta como ocasião de ser tal como parece que deve ser.
E a preocupação com quem devo ser eleva os olhos do homem ao horizonte mesmo de sua vida, e faz brotar a expressão tornada famosa por Olavo de Carvalho:
Il ne faut que nous sachions bien que la menace pesant sur nous tous n’est pas seulement de mourir; c’est de mourir comme des imbéciles.
O homem maduro não mais viverá na “superfície de si mesmo”, mas sonda suas profundezas em busca de uma verdade, da sua verdade; se a impostura arrastou o abade Cénabre, protagonista do segundo romance de Georges Bernanos, à morte da alma, a verdade que liberta é a aceitação de perder a vida para ganhá-la, é o encontro e o convívio com Deus, uma morada que a morte não pode tocar:
“O que eu quero dizer, ao voltar às idéias da minha primeira comunhão é que eu reconheço mais do que nunca que a vida – mesmo com a glória que é a mais bela das coisas humanas – é uma coisa vazia e sem sabor quando não misturamos nela, sempre, absolutamente, Deus. De onde me parece logicamente que, para ser feliz, é preciso viver e morrer para Ele, ajudando para que Seu reino chegue de acordo com a idade, segundo a vossa posição, os vossos meios, a vossa sorte, os vossos gostos. E desta forma eu não terei mais medo dessa abominável morte”.
Enquanto esteve no Brasil, Bernanos teve como livro de cabeceira os Novissima Verba, de Santa Teresinha de Lisieux, um daqueles “santinhos” que serviram de inspiração para seus personagens – como o Cura d’Ars reverbera no padre Donissan, de Sob o Sol de Satã. Em nosso grupo, temos lido biografias de Santa Teresa para tentar compreender melhor a vida desses personagens.
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